Diário de Maria – Rock in Rio

Rock in Rio. Sempre foi um sonho. Quando me mudei pro Rio a primeira coisa que pensei foi que eu poderia ir pro Rock in Rio. Depois que aconteceu tudo comigo, e tive que voltar pra casa da minha mãe, mantive o sonho e comprei o ingresso. Comprei no começo do ano e eu nem sabia ainda tudo que teria que enfrentar, quando comprei achei até que já estaria transplantada em outubro. A gente sempre acha que vai durar menos tempo do que dura. Mas, eu fui. Contrariando até o desejo dos meus pais, que, por proteção, acharam melhor que eu não fosse. Mas, eu discordei deles. Ninguém que olha pra mim sabe o que eu tô passando. As pessoas me vêem como uma mulher comum. Branca, com o cabelo loiro com mechas mais claras, 162cm, 53kg, ALL STAR vermelho. Uma bolsa a tiracolo atenta com furtos. Uma garrafa de água preparada pra um show longo. Mal sabem eles o tanto de gelo que eu tive que chupar mais cedo pra me dar o privilégio de tomar uma garrafa de 500ml de água.
Eu não tenho rins, então não faço xixi, controlo, portanto, tudo que bebo.
Eu não tenho rins, então não faço xixi, controlo, portanto, tudo que bebo. A minha maior preocupação desse show era beber água. Fiquei com medo de ter sede demais então cheguei no final da tarde. Protegi o meu braço esquerdo como quem protege uma filha. Uma filha mesmo, minha fístula. É por onde faço a hemodiálise e se, por acaso, alguém caísse sobre mim, apertasse meu braço com força, poderia correr o risco de perder a fístula, o que me faria ter que voltar a usar catéter. Mais um procedimento invasivo, doloroso, que mexeria também com minha autoestima, fora os riscos de infecção. Isso não me impediu de chegar o mais próximo, que pude, do palco. Ah! O calor também pode fazer minha pressão cair e quando ela abaixa eu também corro o risco de perder a fístula. De fato, ela é o que eu tenho de mais importante no meu corpo, só quem é renal entende.
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Mas, naquele dia eu continuava sendo apenas uma menina loira de estatura média realizando um sonho.
Mostrei pra quem quisesse ver, porque acho que, embora tenhamos dificuldades e medos, podemos ser fortes e realizar nossos sonhos.
Infelizmente nem todos compreendem que doença não tem cara, e que um diagnóstico não deve determinar escolhas.
Agradeço aos elogios que recebi por ser essa mulher que sou e tenho consciência disso. Quanto às críticas, respondo com um sorriso no rosto, mesmo levando todo esse peso nas costas consigo ser leve e livre. Me doou àquilo que acredito e faço o que posso para ser feliz.
Desejo o mesmo para vocês.
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Jaque de Bem Autor

Jaqueline de Bem é jornalista por paixão, idealista de coração e amante da verdade. Ajudar o mundo a se comunicar de forma positiva e verdadeira é a sua missão nessa terra.