Diário de Maria – Quando eu fui controle remoto.

Uma vez em uma dinâmica de pós graduação uma equipe de profissionais nos fez escolher qual objeto nos representava e eu escolhi o controle remoto. Um tempo de terapia pra entender que a gente tenta controlar ao nosso redor por desconfiar que o outro não saiba fazer tão bem como a gente.
Mas aí eu me peguei pensando que tanto tempo eu fui controle sendo que eu podia ter sido, quem sabe, um canudo, biodegradável é claro!
Esse tratamento me deu novos óculos pra vida, saí do local de enfermeira para o de paciente, e muitas vezes esta troca foi uma bagunça porque eu queria pensar cientificamente quando eu deveria só confiar no trabalho do outro,
Muitas vezes precisamos confiar no universo e no tempo certo. Devemos confiar no processo. *Maria Luisa Villela
E esse “só” foi tão difícil de lidar. A história de me tornar passiva no meu próprio enredo. Não me era muito atraente. 
Eu até comecei a problematizar minhas relações quando entendi que eu realmente fui controle por muito tempo. Não dá pra ser sempre controle remoto, pro amor é preciso mais. 
Ou menos.
Fiquei muito tempo dando o meu máximo pra organizar o processo do transplante que no começo eu queria a todo custo, não pensei que a hemodiálise se alongaria e acabei de completar um ano de tratamento.
Aquela era eu tentando fazer dar certo tudo ao meu redor, quando muitas vezes não dependia só de mim. Nas relações também funciona assim, é uma via de mão dupla, não depende só de nós.
Foi aí que eu entendi e aprendi a confiar no outro também. Não só nas pessoas, mas naquele outro que não é palpável e que também não tem nome. Muitas vezes precisamos confiar no universo e no tempo certo. Devemos confiar no processo.
Quando você aprende a confiar no outro sobra tempo pra pensar em você. Por que o outro está ali, fazendo o trabalho dele e você aceita que ele também pode fazer aquilo muito bem. Então sobra tempo pra você refletir sobre suas relações. Sobra tempo pra você conseguir entender que o amor não é um controle remoto;
O amor pode ser uma rede na praia, pode ser a sombra de uma árvore em um dia quente, pode ser um copo de água quando a gente está com sede. O amor pode ser o cheiro de café com bolo da sua avó, ele pode ser o abraço de quem tem saudade, o amor pode até ser sua própria companhia pra fazer algo que te faz bem;
Eu decidi que eu não sou mais um controle remoto.
E nesse caminho de espera, não passiva, mas, paciente, aprendi a apreciar os momentos com calma entre tantas outras coisas bonitas que venho aprendendo.
O outro também pode ser bom e pode ensinar muito.
Façamos a nossa parte, mas não sejamos sempre controle.
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Jaque de Bem Autor

Jaqueline de Bem é jornalista por paixão, idealista de coração e amante da verdade. Ajudar o mundo a se comunicar de forma positiva e verdadeira é a sua missão nessa terra.