Coluna do Bem – Por trás do desastre

Brumadinho é mais um incidente na trajetória das mineradoras no Estado de Minas Gerais. Em risco estão muitas outras barragens, instaladas em áreas de extração de minérios, majoritariamente de ferro. Enquanto não há nada para notar, as mineradoras continuarão fazendo o que sempre fizeram para ter lucro – principal objetivo de qualquer delas. Em realidade o lucro daí obtido favorece meia dúzia de acionistas, emprega um bom contingente de pessoas com salários, na base, de sobrevivência, e na cúpula salários de nababos. A vida humana não está na pauta, o meio-ambiente também. Enquanto eles garantirem aos acionistas os ganhos de capital proporcionados por grandes volumes extraídos e baixos custos, os da cúpula continuarão ceifando vidas sem nenhum remorso. Afinal a economia de mercado deve ser prioritária – a vida integrada por humanos, fauna e flora não entra na equação dos ganhos de produtividade. Por toda a história da humanidade, até mesmo na pré história, o homem para se manter vivendo precisou sempre deixar subprodutos, resultado da extração e/ou transformação de algo necessário a vida no tempo em que vivia. Toda ação humana nesse sentido gera, invariavelmente resíduos, descartados no meio ambiente. O produto fim de uma mineradora é matéria prima para milhares de aplicações em manufaturas destinadas ao bem estar de milhares de pessoas. É só olhar a volta – nas cidades, no campo, no mar, no ar. No macro todos os meios de transporte empregam o aço, cujo estado original é o minério bruto. Nas construções o mesmo aço é empregado estruturalmente junto com o concreto e beneficiado como vigas e demais aplicações. No emprego em utensílios domésticos é universalmente aplicado também.

Então não há como conciliar o economicamente rentável com o ambientalmente correto. O ambiente – com a economia voltada para o consumo – estará sempre na rabeira das atenções de governos e empresas. Preservar o meio ambiente custa caro e ninguém quer gastar dinheiro com isso. O crítico é o estado de deterioração do planeta nessa área – a velocidade de degradação é bem maior que o tempo necessário para decompor os resíduos gerados pela ação do bicho homem. Em 29 de março de 2003 houve o rompimento de uma barragem de resíduos em Cataguases, MG. A mídia esparramou a notícia do incidente apimentando o caso com o sensacionalismo irresponsável nas edições mancheteadas em letras garrafais como o pior desastre ambiental do Brasil. Na mesma data Bush bombardeava o Iraque – o tempo de exposição de uma e de outra noticia se igualava. Particularmente estive no epicentro do rompimento da barragem, sem ao menos alguém perguntar ou mesmo apurar de quem era a responsabilidade inicial. A Cataguases de Papel não tinha absolutamente nada a ver com a barragem – a empresa nasceu recicladora de papel, não gerou aquele passivo! O resíduo armazenado na barragem foi depositado lá pela então Indústria Matarazzo de Papeis, autorizada pelo Copam, no período de 1989 a 1992. Mas o “pau comeu” em cima de dois dos diretores operacionais da fábrica – um era eu. O certo é que aquele rompimento não trouxe consequências maiores, não houve vítimas. Nem fauna, nem flora foram dizimadas. Apenas o visual ficou comprometido com a coloração negra da água.

Aquilo poderia ter despertado nos órgãos de fiscalização, também em todos aqueles que possuem no processo de industrialização barragens de rejeitos atenção especial, no sentido de evitar que outro incidente do tipo ocorresse. Mas, aí estão – outros quatro desastres, e3sses últimos com vítimas fatais – e todos em Minas Gerais! Fauna e flora atingidas em proporções devastadoras. Vidas ceifadas abruptamente. Mariana há três anos e Brumadinho recente – o lucro insensível sendo o algoz de gente inocente! E não pensem que vai mudar – a Vale continuará objetivando o lucro aos acionistas!

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João de Bem Autor